A busca

por Elis Batina

Numa sociedade onde a noção do sentido cada vez é menor, valorizando o desempenho, o ato-show do super, do hiperperfeito sem substância, desumaniza-se o individuo, entregando-se ao pavor, gerando-o, ou indiferente a ele.

O ser humano se vê perdido no meio de tanta informação. Sem discernimento, ele, inseguro, agarra-se a amontoar coisas e cuidar do ego deixando de lado o seu desenvolvimento integral. Com tudo isso, não é difícil entender a indiferença pela ordem, pelos valores éticos, pelo asseio ao corporal. Como assevera Joanna de Ângelis, vivíamos antes numa época de hipocrisia, de uma falsa moral que mascarava os erros através de tabus e superstições, levando a fatores atuantes na desagregação da personalidade.

A mudança de hábito possibilitou a mudança de algumas fobias, mas impôs outros padrões comportamentais de massificação, levando ao modismo, ao desequilíbrio de comportamentos extravagantes. Houve troca de conduta, mas não renovação saudável na forma de encarar-se a vida e de vivê-la.

Diante disso não se tem muita opção: ou se coloca numa postura competitiva, repressora, violenta e agressiva que chega as raias da perversão, ou o homem busca mecanismos de proteção emocional que o levam à acomodação, à agressão, por medo e busca da sobrevivência, pois se encontra com receio de ser consumido, esmagado pela massa crescente ou pelo desespero avassalador.

Perde-se o idealismo e o homem se vê comprimido onde todos fazem a mesma coisa, assumem iguais composturas, passando de um compromisso para outro numa ansiedade constante. Tem-se a preocupação de parecer triunfador, de responder de forma semelhante aos demais, de ser bem recebido e considerado, causando a desumanização do individuo, que se torna um elemento complementar do agrupamento social.

O resultado é que o individuo se entrega a viver apenas o presente e o prazer, ao consumo e ao individualismo. As pessoas se encontram perdidas, completamente atropeladas pela “correria da vida”, num lugar onde não há tempo para o encontro verdadeiro, para o entendimento e para a paz. O individuo acaba perdendo a noção do real e do limite de si mesmo e do mundo. Essa crise se estende tanto para os indivíduos como para todos os segmentos e componentes da vida, principalmente a vida urbana, que é a vida construída pelo homem. Os sintomas são: fragmentação, hiperespecialização, depressão, inflação, perda de energia, jargões e violências. Isso aparece também no mundo: nossos prédios são anoréxicos, nossos negócios, paranoicos, e nossa tecnologia, maníaca. Como diz Hillman: “Sujar o mundo com lixo, construir estruturas monstruosas, consumir e desperdiçar para distrair o tédio não é apenas ilegal, imoral ou antissocial e doentio. É vergonhoso, ofensivo para o mundo, nocivo para a sua alma”.

Esse ambiente pós-moderno demonstra que estamos separados do mundo. E entre nós e o mundo estão os meios tecnológicos de comunicação com toda a sua mídia. Eles não nos informam sobre o mundo; eles refazem o mundo como eles querem, simulam uma vida para nós e transformam o mundo num espetáculo. Há atualmente um principio esvaziador. O sujeito vai perdendo os referenciais da realidade, perdendo a própria substância de si mesmo. É o que os filósofos chamam desreferencialização do real e dessubstancialização do sujeito. Esse princípio desfaz regras, valores, faz com que a realidade se degrade e que individuo viva sem projetos, sem ideais, a não ser cultivar sua autoimagem e buscar a satisfação do aqui e agora.

O que vale são as vitrines, o culto ao corpo, o fantástico do momento, o consumo de tudo, até do outro.

A “realidade” da tv é mais fácil, mais viva, imagens nas quais, por exemplo, os carros são mais ágeis e nobres e passeiam por estradas magnificas com efeitos de cores e músicas especiais, doces e comidas que enchem os olhos, e aquele prazer de viver maravilhoso da coca-cola. Agora se perguntem: quando se consome em desses produtos, consegue-se capturar e sentir o que a imagem nos trouxe?

O que isso acarreta é um misto de fascínio e vazio, dando a falsa impressão de que se vive tudo aquilo que aparece, mas que na realidade não existe. A vida acaba ficando mais difícil do que é, por ela ser um choque com o paraíso e facilidades oferecidos pela mídia.

Isso adoece qualquer um, principalmente se não temos uma sustentação espiritual. Se perdemos a fé, se não temos ideais, se vivemos uma vida superficial com uma imagem falsa que nos tira do contato mais intimo com a vida, se perdemos a noção dos limites, o que pode nos acontecer? É o que a psicologia chama de “entorpecimento psíquico” que vem se acrescentar à “era da ansiedade”.

Estamos cada vez mais acometidos por síndromes do pânico, doenças autodestrutivas, nossos olhos estão opacos e vazios, nossos corações com uma dor surda…

Segundo Hillman:

“Existe um império imenso, feio e maligno trabalhando dia e noite para nos conservar dessa forma. A diversão e a televisão maniacamente saturadas, excessivas, sonoras e fortes, as informações da mídia, a bebida, o açúcar, e o café, desenvolvimento e melhorias, consumismo, comprar, comprar, comprar, a indústria da saúde construindo músculos e não sensibilidade, a indústria médica no papel de boticário, pílulas para dormir, pílulas excitantes, tranquilizantes, lítio para crianças”.

Mas a crise não é só de terror e incerteza. No refluxo dialético da vida, uma conspiração renovadora se instaura. Estamos entrando numa nova fase que podemos chamar de Homem Psi. Esta fase se caracteriza por uma conscientização da realidade espiritual e dos valores que buscam desenvolver as capacidades internas. Essa fase é a fase psicológica, não mais a ênfase no mundo e nas conquistas exteriores e sim no desafio de conquistar a nós mesmos.

Fonte: Livro Refletindo a Alma.

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